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quarta-feira, 13 de maio de 2009

Por uma definição: Arte sequêncial (parte3)

Quadrinhos para além dos super-heróis


É verdade que a maior parte do mercado de hq seja composto em sua maioria de quadrinhos de super-heróis e histórias de fantasia; durante muito tempo as histórias em quadrinhos careceram de inventividade, sendo chamado de "novidade" inúmeras reformulações na vida de personagens centrais dos universos DC e Marvel comics, bem como as mortes e ressurreições dos mesmos.

Mas não podemos resumir a história das hq à história dos comics americanos. No Brasil, por exemplo, na década de 70, como reflexo da cultura underground(também norte americana)temos o crescimento dos quadrinhos independentes e estabelecimento de um gênero de quadrinhos adultos que foge à regra do âmbito erótico/terror. Obras como principalmente Chiclete com Banana foram divisores de água propiciando o destaque de artistas como Angeli e Glauco, por exemplo.

Aqui no Brasil, recentemente vemos um concorrente dos comics à altura, que a cada ano converte novos adeptos; cresce nas prateleiras o conteúdo oriental da arte seqüencial disponível. É o Mangá. Os quadrinhos da terra do sol nascente oferecem mais diversidade em questão de conteúdo que os comics americanos. O Mangá não só faz parte, mas está entranhado na cultura japonesa, e uma das coisas que o define é o fato de retratar a própria cultura japonesa. Há diversos gêneros de leitura: o shonen para meninos; o shoujo para meninas; os mais relacionados a assuntos adultos como os econômicos, os sararimen (salary men), voltados para empresários; mangás para as donas de casa; mangás eróticos, os chamados hentais e até os mangás nos quais os personagens principais são homossexuais: os yaoi.

Em Reinventando os quadrinhos, Scott Mccloud cita a deficiência da diversidade de gênero nos comics americanos, chega a criar 12 revoluções(sendo o problema da diversidade de gêneros apenas uma delas) pelas quais as histórias em quadrinhos precisarão passar para se reinventar, frente às barreiras impostas, limitações e questões como a diversidade de gêneros, que em comparação a gigantesca industria de super-heróis, é quase nada. O termo quadrinho adulto, por exemplo, sempre é veiculado a quadrinhos eróticos ou pornográficos; tal atitude é diminuir todo o “resto” à categoria infantil.

Quadrinhos como Maus de Art Spiegelman, e Estigmas, de Lorenzo Mattotti são apenas alguns dos chamados graphic novels que fogem a regra do gênero fantasia e de super-heróis, buscando um estilo de história alternativo até então. Atitudes assim tendem a buscar a conquista dos 90% do público mundial que ainda não descobriu os quadrinhos, senão pelo menos explorar o potencial narrativo de outras formas para além dos tabus, assim como já fizeram outras mídias.

O que tende a ser um paradoxo. Quem cresce lendo quadrinhos, a não ser que seja um fã de carteirinha do gênero predominante(super-heróis), quando crescer seria mais que natural, se este continuar empregando seu rico dinheiro para isso, seria mais que plausível que ele buscasse coisas novas, diferentes. E é essa justamente uma das críticas gerais a toda mídia de massa, a de que ela não direciona seus esforços para o crescimento intelectual de seu consumidor, mas ao contrário, apenas quer seu salário em troca do mesmo material de sempre, mais do mesmo. Ou seja, a oferta é praticamente sempre a mesma, e em contrapartida a demanda é muito maior(ou seria, se houvesse tantos leitores de quadrinhos nos mundo quanto há gente faturando em cima da empresa de hqs).

Uma das revoluções de Mccloud também merece ser mencionada: “a de que as instituições de ensino superior e a lei poderiam combater o preconceito popular e tratar os quadrinhos com mão justa.” Esse exemplo foi aqui citado como premissa para uma avaliação do quadrinho além de sua atividade lúdica: usar-se das histórias em quadrinhos como recurso de aprendizagem em salas de aula. Mas seria possível encará-los como muito além de um mero apoio escolar ou introdução á leitura? Octavio Aragão, professor da URFJ, acha que sim:

“Os leitores de quadrinhos tendem a desenvolver uma percepção mais aguçada e uma associação de informações complementares com maior eficiência e rapidez, pelo fato de cruzarem referenciais e códigos de fontes diferentes em apenas um contexto. O leitor aprimora a acuidade visual e estabelece rápida associação de idéias”, explica o professor.7

Trabalhando como apoio, as hqs tornam o ensino lúdico, tanto para crianças quanto para não-crianças(ou aprender precisa sempre ser chato?),mas numa análise mais profunda, “ajudam a construir uma narrativa para além do que está subtendido entre um quadrinho e outro da história. Contribuem, portanto, para o desenvolvimento da própria linguagem, da criatividade de conceitos como o da causalidade.” 8

Se por um lado os quadrinhos podem auxiliar na construção da linguagem e escrita, por outro não poderiam prejudicá-las? Estudos específicos foram feitos com esse interesse, avaliando a linguagem falada nas hqs e de que forma isso influenciaria as crianças.
Em 1953, Harvey Zorbaugh ministrou uma pesquisa com 400 crianças, da 6ª a 9ª séries, usando a quadrinização da biografia de Clara Barton, publicada na revista Wonder Woman(Mulher Maravilha). As crianças foram divididas em 16 grupos, em três níveis de Q.I., baixo, médio e superior, depois, re-divididas em 2 grupos de Q.I.s 91 e 111. Foi feito o seguinte: copiou-se o texto do quadrinho em questão e esse mesmo texto foi entregue a um dos grupos, enquanto ao outro foi entregue a versão em quadrinhos. Após a leitura de ambos os grupos, foi realizado um teste objetivo sobre o conteúdo lido. Uma semana depois, os grupos leram o material inverso e novamente um teste foi realizado. No primeiro teste, quase todos os grupos, exceto um, que leram a hq tiveram um percentual de 10 a 30% de acertos a mais que o grupo do texto puro. No segundo teste(grupo do texto puro lendo quadrinhos), houve uma melhora nos resultados em comparação ao primeiro, mostrando que aprenderam mais com os quadrinhos. O resultado favoreceu as crianças do primeiro grupo, as de Q.I. baixo e médio, enquanto as “mais inteligentes” aprenderam a mesma coisa lendo o texto e os quadrinhos.(Kyrillos, Many. Tese de mestrado. A adequação da linguagem nas histórias em quadrinhos, Puc-rio,dezembro, 1974)
Em 1974, Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica, quando perguntado sobre o trocar de letras do personagem cebolinha disse o seguinte:

“(...)Eu preferi só trocar as letras, e quando começaram algumas reclamações, sugeri que usassem como exercícios. Daí a Abril usou o nosso boneco, o Cebolinha, em fascículo de português...(...)...se o Cebolinha começar a falar realmente uma linguagem errada, aí...(...)...vamos encontrar problemas com as Secretarias de Educação desse Brasil inteiro.” 9

O engraçado é que nas histórias de Maurício, Chico Bento, o personagem que mais fala errado é o único que vai a escola... Mônica, Cascão, Cebolinha e Magali não a freqüentam. Maurício brinca:

“(...) Eu ainda estou procurando uma escola para eles. Tá muita gente procurando uma escola ideal para os filhos.” 10

Mas há outras vertentes de quadrinhos, hqs com outros intuitos além do geralmente conhecido e que nem sempre encaramos como quadrinhos. Um desses ramos são os que utilizam-se da linguagem da arte seqüencial para seus próprios fins, como os do tipo “instruções de uso”.

Aqui no Brasil, quadrinhos com propaganda eleitoral de candidatos políticos, retratam uma postura que busca atingir um público mais extenso com uma linguagem dita jovem, ao mesmo tempo que possa receber severas críticas quanto ao mesmo grupo, os leitores de quadrinhos já qualificados críticos da obra.

Quadrinhos informativos de prevenção a doenças contagiosas ou para fins médicos, na maioria das vezes servindo para tudo, menos para usar-se plenamente do meio para atingir seus objetivos, tendo nos balões de fala textos enormes e cansativos e uso de duas cores chapadas que não despertam interesse nenhum para a leitura. E quando não é isso, são os desenhos e os diálogos dos personagens que acabam por degradar a obra. Não que revistas como estas precisem ser verdadeiras obras de arte, mas a partir do momento que se usa um meio alternativo(como o quadrinho ainda é, neste caso)para atingir metas que não a ludicidade, ou seja, assumindo um caráter mais sério, o resultado acaba por comprometer tanto o meio quanto o conteúdo; além do dispêndio econômico empreendido ter sido em vão.

Há também o fenômeno recente das histórias em quadrinhos jornalísticas, com conteúdo informacional, como ocorre no jornal do Globo, obtendo retorno positivo do público. Tal ação acabará por atrair um publico leitor diferente do habitual, diversificando os consumidores do periódico.

7. Jornal da UFRJ, maio de 2007, p. 22

8. Francisco Caruso, físico, fundador da Oficina Eduhq em entrevista ao Jornal da UFRJ, maio de 2007, p. 22

9. Kyrillos, Many. A adequação da linguagem nas histórias em quadrinhos, p. 83

10. Kyrillos, Many. A adequação da linguagem nas histórias em quadrinhos, p. 91


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Esse post faz parte de nossa pesquisa. Para saber mais, leia:

Introdução
Por que quadrinhos?
Press on

Por uma definição: Arte Sequencial
Definindo o quadrinho
Origens
Quadrinhos para além dos super-heróis

A linguagem e seu vocabulário
Iconografia: letra e imagens pictóricas
Texto e imagem
Pensamento ocidental X oriental

Quadrinhos Mudos
Falando sem abrir a boca uma vez
Viabilidade como mídia de comunicação de massa
Exemplos

Síntese

O projeto
Adoção de partido
Desenvolvimento do partido adotado
Experimentação

Conclusão?

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